Dark Mode é somente uma opção estética

Dark Mode não é uma solução mágica para problemas de acessibilidade; trata-se somente de uma opção estética.

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Está em voga o tão popular e almejado Dark Mode (ou Modo Escuro), tendência na indústria de tecnologia em que background claros default são substituídos por um azul marinho neutro ou preto. Grandes empresas, como Twitter e Facebook, também aderiram.

A Apple — que também já adotou o dark mode — afirma que o modo escuro “tornará cada elemento da tela mais fácil para os seus olhos”, e algumas pessoas afirmam que usar dark mode é melhor para evitar enxaquecas.

Mas a verdade é que há poucos dados para mostrar que dark mode é realmente mais agradável para os olhos da maioria das pessoas. Mesmo para aqueles com deficiência visual, o modo escuro não é necessariamente melhor do que outras opções de acessibilidade disponíveis há anos — embora haja pouca pesquisa sobre o assunto em geral.

Exemplo de interface com dark mode (modo escuro) ativado.

Uma coisa é certa: na maioria das configurações do dia-a-dia e para a maioria das pessoas, o modo escuro não fará muita diferença para aumentar a produtividade ou aliviar a fadiga ocular.

Provavelmente, Dark Mode não é nada mais do que outra opção estética, não um milagre da acessibilidade que muda vidas ou aumenta a produtividade, como muitos querem alardear.

De fato, para a maioria das pessoas, os modos escuros diminuirão a legibilidade e a produtividade!

Estudos sobre a eficiência de Dark Mode

Um estudo de 2003 observou como a compreensão de tarefa pelas pessoas foi afetada por diferentes condições de exibição da tela, incluindo polaridade negativa (texto claro em um fundo preto) e polaridade positiva (texto preto em um fundo branco).

Descobriu-se que os participantes tinham mais facilidade para concluir tarefas quando as telas estavam em um modo de polaridade positiva.

Dark Mode não é nada mais do que outra opção estética, não um milagre da acessibilidade que muda vidas ou aumenta a produtividade, como muitos querem alardear. Tuitar isso

Outro estudo (2013) analisou o impacto da polaridade positiva e negativa em indivíduos jovens e idosos, uma vez que o agravamento da visão de uma pessoa idosa poderia teoricamente determinar como eles são afetados pelo brilho e contraste da tela.

Descobriu-se que ambas as populações tiveram um desempenho melhor quando as telas estavam em modo claro.

Embora o texto preto em um fundo branco possa ser tecnicamente a maneira mais eficiente de usar uma tela, os devotos de dark mode têm um ponto: o recurso pode ser genuinamente útil à noite.

Isso porque, como olhar para uma lâmpada em um ambiente escuro ou tentar ver um corredor escuro de uma sala bem iluminada, se a tela do telefone for significativamente mais clara ou mais escura do que a área ao redor, o olho terá problemas para se ajustar.

Qualquer pessoa que já teve que olhar de soslaio para a tela do telefone antes do amanhecer ou que tentou ver uma imagem escura da televisão em uma sala iluminada estará familiarizada com a experiência.

Esse tipo de situação, de acordo com a Mayo Clinic, pode causar fadiga ocular, com sintomas que incluem secura ocular, fadiga e dor de cabeça — a longo prazo, porém, provavelmente não levará a danos permanentes.

Modo Noturno e Dark Mode

Muitos modelos de smartphones e computadores agora vêm equipados com sensores de luz que ajustam o brilho da tela em relação à luz do ambiente em que se encontram. Mas, para aqueles que são particularmente sensíveis à luz ou simplesmente não gostam do tom quente de “modos noturno” de fabricantes, os recursos de dark mode podem ser uma adição bem-vinda.

“Dark Mode pode ser muito útil para pessoas que têm sensibilidade ao brilho, porque reduz a intensidade geral da tela”, diz Lauren Milne, professora assistente de Ciência da Computação no Macalester College, cuja pesquisa se concentra em questões de acessibilidade.

“Muitas pessoas com baixa visão, especialmente pessoas com visão em túnel, preferem texto branco em um fundo preto, pois acham mais fácil distinguir as palavras”. Durante anos, os sistemas operacionais permitiram a inversão de cores, em que as cores escuras da tela se tornam claras e vice-versa, mas essas configurações podem ter um efeito perturbador que nem sempre é bem-vindo ou é esteticamente agradável.

A eficiência de Dark Mode colocada em xeque

Mas, de acordo com Syed Billah, um candidato a PhD em Ciência da Computação na Stony Brook University, o dark mode pode não ser tão eficaz para pessoas de baixa visão quanto a inversão de cores mais tradicional. Em sua pesquisa sobre tecnologia acessível para pessoas com deficiência visual, ele descobriu que indivíduos com certas condições (como glaucoma) preferiam texto grande em modos de alto contraste.

Nesses modos, o texto aparece como amarelo, branco ou verde em um fundo preto. “Isso é bem diferente do modo escuro do Mac”, diz ele. “O modo escuro usa diferentes tons de cinza, limites [e] bordas não são muito proeminentes [ou] discerníveis no modo escuro e não funciona muito bem para aplicativos não-Mac”.

Mais um exemplo de interface com dark mode (modo escuro) habilitado.

Assim, embora o dark mode do Twitter, por exemplo, possa ser atraente para pessoas com visão normal, com seu fundo azul marinho e texto branco ou cinza, pode não funcionar como um recurso de acessibilidade para pessoas que realmente precisam dele.

Isso não quer dizer que o modo escuro seja prejudicial, apenas que não tornará a visualização das telas mais fácil para pessoas com deficiência visual.

Lembre-se, porém, de que não há muitas pesquisas sobre interfaces modernas com dark mode que se estendam além de seu impacto na legibilidade para usuários com visão normal.

“ter várias opções é melhor que nenhuma”

É concebível que dark modes bem feitos possam melhorar as experiências de pessoas com fotofobia (sensibilidade à luz) ou outras deficiências visuais, mas, como há tanta escassez de informações sobre o assunto, é difícil saber até que ponto isso poderia ajudar ou qual seria a melhor implementação de dark mode.

“Eu realmente gostaria que houvesse mais bons e atualizados estudos sobre a questão da luz-no-escuro versus escuridão-na-luz”, disse Silas Brown, um cientista da computação com visão parcial da Universidade de Cambridge.

Isso não quer dizer que dark mode seja prejudicial, apenas que não tornará a visualização das telas mais fácil para pessoas com deficiência visual. Tuitar isso

Pessoas com doenças cerebrais que podem afetar o processamento visual — como dislexia, enxaqueca e autismo — podem ter sensibilidade à luz e a certas combinações de cores, mas “todas essas condições cerebrais são mal compreendidas e cada uma é realmente um termo genérico para toda uma gama de subcondições, então, certamente não podemos dizer que as configurações de exibição ajudam em todos os casos”.

Ainda assim, Brown e Milne dizem que várias opções são melhores do que nenhuma, e algumas pessoas podem achar que o modo escuro as ajudará a ter melhores experiências com suas telas. “Fico sempre feliz quando um [desenvolvedor] adiciona oficialmente opções como o modo escuro”, diz Brown. “Ele permite que usuários individuais descubram por si mesmos se isso faz diferença em seu caso específico ou não”.

Conclusão

É ótimo que grandes empresas estejam oferecendo a opção de usar dark mode, embora não seja necessariamente a melhor maneira de olhar para a tela em ambientes com muita luz. Mas, como muitos de nós olhamos para telas o dia todo, todos os dias (frequentemente, à noite), precisamos de mais pesquisas sobre as maneiras mais saudáveis de essas telas funcionarem.

No momento, existem muitas lacunas. Isso é especialmente verdadeiro para pessoas com baixa visão, pessoas que têm enxaquecas e outras deficiências visuais. Dark mode pode ser uma atualização interessante por enquanto, mas há potencial para algo muito melhor — se as empresas decidirem fazer desse tipo de acessibilidade uma prioridade genuína.